sexta-feira, 27 de maio de 2011

Religião moderna: Retrocesso ou evolução? Da abordagem transpessoal sobre livre-arbítrio e determinismo.

A concepção moderna de religião do homem permitiu o desenvolvimento da crença baseada em algumas pilastras que são oriundas da própria história da civilização, e se confunde basicamente com a instituição na crença em um ente superior materializado em um expoente místico. A gênese da nossa crença religiosa, que apesar de demonstrada no espaço cronológico que data o período anterior a Cristo e posterior a ele, é produto da evolução de algo muito maior e complexo do que simplesmente a existência de Jesus Cristo ou não. A transição do “Grande Ninho do Ser” do período mítico-associativo para o início do período egóico - pessoal é a resposta-chave para muitas das questões concernentes aos conflitos existentes na história humana e que perduram até hoje; em linhas gerais, esta transição permitiu ao homem, já sapiens, mais do que simplesmente associar “pequenos” processos de conhecimento, como por exemplo compreender e assimilar a estrutura que compreende a fabricação do fogo ao analisar um raio caindo em um galho de árvore seco, lhe induzindo a buscar dentre as ferramentas que têm conhecimento o movimento de fricção para gerar calor e posterior fogo, mas sim compreender a sua real relevância no meio e mais do que isso, possibilitá-lo a associar o seu poder de exercício de domínio perante os seus demais semelhantes e a sua influência neles, e principalmente da sua capacidade de transformação deste meio. A consolidação do período mítico-associativo, que permitiu ao homem compreender a grande maioria dos fenômenos naturais e associá-lo à responsabilidade do universo, foi de fato preponderante para que a cognição intelectual do homem se desenvolvesse para algo transcendente aos movimentos da natureza; a partir deste momento, o homem inaugurou um período de intenso domínio sobre a explicação dos fenômenos da natureza, iniciado com a agricultura, e posteriormente com a ciência e tecnologia, mas principalmente de exercício de domínio perante os seus demais semelhantes através da religião. O surgimento das religiões em nada se assemelha à concepção de fenomeanologia natural do período mítico, mas sim da associação do indivíduo como parte única e exclusivamente individual de um processo, com um Deus capaz de modificar o curso da vida se estimulado por uma crença expoente baseado em domínio, opressão e devoção. O início da “Era das Trevas” demonstra mais do que simplesmente um período de “baixo” desenvolvimento intelectual-cultural no Ocidente sob o aspecto material-histórico, conclusão esta oriunda das formas questionáveis de medição da própria História Moderna, mas principalmente por inaugurar um período de fortíssima dominação e opressão do próprio homem aos seus semelhantes. Verifica-se na colonização dos primeiros povos europeus, pelos árabes, o domínio desenfreado de sistemas de poder com o objetivo de fixar a hierarquia opressiva, e entre elas, é no arcabouço filosófico-intelectual desta empreitada que se situa o início das religiões no mundo Ocidental como ferramenta de opressão e dominação através da devoção. Entender que a religião opera de forma a disseminar uma filosofia autocêntrica, que assume expressamente que o indivíduo tem real poder sobre os movimentos do universo se devoto for ao seu Deus religioso, é verificar acima de tudo o teor do discurso ideológico que baseiam as religiões modernas, concluindo que somos parte de uma grande cadeia onde o indivíduo é levado a crer que um Ente superior lhe ajudará quando necessário caso cumpridas as etapas dos “pré-requisitos” do padrão individual de comportamento. Ou seja, indivíduos que são levados a crer na disposição de um Deus às suas vontades, tendem a ser mais vulneráveis aos processos de repressão e opressão pois desconhecem o teor que os distancia do seu próprio Espírito. A religião moderna não é apenas pernóstica ao determinar que a vida individual está regida pela vontade individual, mas principalmente por aceitar que este ou aquele Deus é inteiramente responsável pelo alcance ou não dos padrões comportamentais de convivência em que se conceituam as atitudes positivas de BEM ou negativas de MAL, ou através da conceituação de Felicidade e Desídia, descartando por ignorância os movimentos e processos muito mais complexos do que a vida terrena que o universo nos proporciona. A tendência de comportamento deste novo período denominado egóico - pessoal intensifica a diretriz de “livre-arbítrio” sob a égide da livre escolha e do alcance de um bem individual que o conduza ao conceito de felicidade. Voltarei neste assunto ainda neste texto para explicar o porquê do livre-arbítrio ser uma tendência comportamental regida por aspectos psicológicos e sociais.
Não obstante ao fato de a religião ter sido gerada num ambiente de transição do período mítico, em que se acreditava na fenomeanologia natural das coisas, para o egoico-pessoal, em que o individuo tem papel preponderante no movimento das coisas do universo, o conflito com a ciência é muito melhor entendido quando verificado o seu papel neste contexto. Não diferente da religião, mas sob outra perspectiva cognitiva, a ciência nasce decorrente de um processo investigativo do homem em verificar como os processos universais ocorriam. E este reducionismo-materialista permitiu à parte da civilização enxergar que os processos universais ocorrem independente da vontade individual dos indivíduos; a física engatinha na compreensão dos processos das partículas, a matemática sedimenta os conhecimentos cartesianos, mas principalmente, a cognição que se alcançou na evolução histórico-material foi compreender que somos parte de um todo que se chama universo. A redução espacial do universo ao espaço individual pela religião permitiu à ciência amplo espaço para desenvolver seu arcabouço intelectual tendo em vista a abordagem mais complexa e em perspectiva do que aquela limitada pela religião. Abrir as portas do conhecimento científico à uma cultura teocêntrica foi de fato um grande salto na evolução humana. Hoje, sabe-se que fazemos parte de um macro-processo universal graças ao desenvolvimento da ciência. A religião ocidental jamais nos permitiria desenvolver esta concepção pois se limita ao relacionamento individual com o Deus institucionalizado pela “religião”. Por outro lado, o processo investigativo científico permitiu ao homem compreender que ele faz parte de um universo muito mais complexo do que as simples relações que tanto o atormentam em Terra, e essa supervalorização das relações egóicas - pessoais decorrentes do período transitivo que se confunde com a criação da religião, acabou por limitar o indivíduo a se enxergar em perspectiva dos processos universais em detrimento das suas necessidades individuais apenas.A religião moderna baseada na crença teológica sufocou o comportamento humano, restringindo-o à simples atuação da religião cristã, por exemplo, como ferramenta de compreensão das idiossincrasias do universo. A ciência utilizou-se de suas ferramentas para compreender os movimentos universais e torneou o comportamento humano de modo a abdicar das vontades individuais ao assimilar que independentemente do conhecimento do mero funcionamento dos processos universais, a sua intervenção é ínfima e imperceptível e em nada serve para explicar o porquê estes processos ocorrem de fato ; o embate entre ciência e religião desde então tem sido inexorável, causando dor e sofrimento para os indivíduos que nele participam.
No desenvolvimento deste processo, o livre-arbítrio se mostrou com uma tendência de comportamento da própria religião. A transição para o período egóico - pessoal evidenciou a necessidade de o indivíduo se ressaltar perante aos demais movimentos universais, tornando a livre-escolha a se parecer como um movimento anterior ao determinismo universal, pois é pautado apenas na resolução psicológica e social; as práticas sociais, que se uniformizaram na criação da opressão pelo período egóico - pessoal são impregnadas de divagações psicológicas, e isto explica em parte o comportamento humano em se ater à explicação de algo objetivo e que o torne centro da resolução do problema, lhe fazendo parecer realmente única e exclusivo no universo. Mas é inegável que o efeito psicológico da livre escolha é latente: os indivíduos se sentem mais felizes quando praticam determinados atos que estão em consonância com o bom alvitre social através das boas escolhas; pessoas pretendem ser responsáveis pois querem ser mais felizes de acordo com o conceito separatista de certo x errado; objetivam e almejam a regularidade de sentimentos; anseiam pela realização do seu projeto de imortalização através das coisas terrenas e assim o fazem para que se sintam mais realizados nesta vida. Em contrapartida, o determinismo universal é mais completo ao abancar a complexidade de todos os processos universais e fazer com o que o indivíduo consiga enxergar para além de si , e se colocar em perspectiva perante aos movimentos que regem o universo. A concepção universal da existência, e principalmente, a humildade de contemplação de que somos apenas parte de um todo, ameniza os conflitos de crença individual pois afinal, somos todos parte de um todo maior do que nossos interesses individuais. Ao passo que enfatizar que a crença no livre-arbítrio focaliza os processos de construção individual apenas no indivíduo, significa também reduzir a nossa atuação às relações exclusivamente sociais e psicológicas, redundando toda a apreciação aos movimentos que regem o restante do universo. Dor e sofrimento decorrentes do não alcance “daquilo que deve ser” ou do projeto pessoal, são acima de tudo os processos mentais e psicológicos que mais afligem as pessoas na Terra.
No entanto não significa dizer que o livre-arbítrio seja irrelevante; ao contrário: a posição do indivíduo perante suas escolhas nesta vida terrena o possibilitam a de fato alcançar maior estabilidade emocional, pois estes são processos única e exclusivamente que dão cabo às relações pessoais e sociais e de fato o fazem se sentir mais realizado e feliz. São essas escolhas que dão percepção, por mais que apenas mental, de que se está fazendo a coisa que deve ser feita. Mas basta dizer que todo e qualquer movimento decorrente do livre-arbítrio individual não causa impacto no movimento universal, a não ser por aqueles que nos circundam ou exagerando, em uma comunidade, mas não mais do que isso. Raramente as ações individuais têm impacto na coletividade, pois estão impregnadas de um comportamento cuja filosofia é resolver os problemas individuais. O mesmo visivelmente não ocorre com o determinismo: todo e qualquer movimento universal impacta diretamente no movimento de todos aqueles que participam deste universo, e fazemos parte destes movimentos a todo o momento, sem que possamos ter a percepção disso.
Ou seja, o processo do livre-arbítrio está em escala inferior ao determinismo, mas não se exclui sua importância no desenvolvimento pessoal do indivíduo, pois ao compreender que somos parte do todo, o caminho para a crença em algo que visivelmente determina o porquê das coisas acontecerem fica mais fácil e inteligível. A ciência é ferramenta indispensável não para compreender apenas os processos científicos( deixemos isto para os cientistas cartesianos); o mais importante é compreender a ciência como ferramenta religiosa que dê perspectiva ao indivíduo a crer que a força que determina os processos universais não poderá ser oriunda a não ser de um ente visivelmente superior, a qual se chama DEUS. A ciência tem feito avanços impressionantes na compreensão deste processo, mas ainda nos sentimos como uma criança em meio à uma biblioteca cheia de livros; sabemos que eles existem mas não sabemos como e porquê estão organizados daquela forma. Sabemos hoje que a visão da estrutura macroespacial das galáxias se confunde com a visão microespacial das partículas subatômicas, e isto pode aliviar o sentimento daqueles que refutam a ideia de que somos parte de um todo. Somos hoje produto do agrupamento de partículas subatômicas na mesma escala que o agrupamento subatômico das quase infinitas galáxias existente no universo; sabemos que a sinapse neurológica envolve todos os processos que ilustram a própria evolução da cognição humana: nele poderemos observar dos mais primitivos impulsos elétricos, até à constatação de uma ideia materializada em pensamento, tudo isso ocorrendo em um espaço imperceptível pela medição humana de tempo, mas pulsando juntamente com o movimento universal de todas as coisas. Do que dizer então da imaginação? A capacidade de criar e reproduzir um universo desconhecido é prova material e irrefutável de que nossa existência não se limita à condição de ser humano; vamos além, pois somos partes indispensáveis deste universo, e não podemos nos separar dele apenas por livre-arbítrio, pois estamos condicionados indissociavelmente à existência de um macroprocesso do Universo.
O que deve ser ressalvado é que a exclusividade do comportamento pautado na livre escolha é tão opressor quanto à própria concepção de religião na crença de um ente superior capaz de modificar os movimentos tão mais complexos e belos do universo. Acreditar nisto, é refutar uma realidade inexistente, comprovando o desconhecimento de que o universo tem movimentos próprios e não coexiste em detrimento das nossas vontades individuais; concepção esta tão defendida pelos movimentos new-age, de auto ajuda e da própria psicologia cartesiana-reducionista-materialista que reduz os comportamentos à causa e efeito decorrente de um fenômeno específico psicológico-mental. A saber que fazemos inexoravelmente parte de um todo, e de que não somos o todo como dizem que somos, nos dá perspectiva de uma compreensão mais universal do que simplesmente da concepção individual oriunda do livre-arbítrio, elimina a opressão do próprio ego sob o indivíduo, e mais do que isso, dá compreensão exata de que devemos contemplar a complexidade do universo a nos limitar à complexidade de nossa simplicidade em conviver com os problemas psicológicos e sociais. Talvez seja esse o caminho para o comportamento da tão falada justiça-social; ao indivíduo que compreender que fazemos sim parte dos movimentos universais, ficará reservado o grande prazer de agir com justiça de fato, pautado nos conceitos comunitários e não apenas mais individuais. Desta maneira, desconstruir um mundo pautado no livre-arbítrio e na responsabilidade individual é construir acima de tudo uma ligação mais íntima com todo o resto, e não apenas consigo mesmo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

2011

Amigos,

O primeiro post do ano não vai ser um despejo de desejos que tenho em relação ao novo ano que chegou, mas uma reflexão sobre algumas coisas que acredito que sejam importantes.
A minha história começa com um filme que eu assisti no ano passado sobre uma mulher que decide tirar um período sabático de um ano, depois de ter passado por vários problemas na vida pessoal. Certamente, uma escolha muito difícil para qualquer um que se sinta um pouco perdido em relação ao rumo que sua vida deva tomar daqui pra frente, e principalmente pela dificuldade da escolha de aonde ir para ajudar a encontrar estas respostas.

Não espere por uma crise na sua vida para descobrir o que é importante para você

É uma tendência do ser humano buscar expoentes após grandes impactos, positivos ou negativos; é uma forma de reclusão mental, que se caracteriza pelo ego reconhecer que algo importante aconteceu, e que é chegado o momento de repensar o caminho a ser seguido.

Não suportamos a falta de tempo nas nossas vidas, e costumamos por este motivo confundir descanso com entretenimento ou lazer. Não praticamos a meditação, no sentido simples da expressão.
Pouco tempo temos para pensar e refletir nas escolhas que tomamos nas nossas vidas; vivemos no ritmo trivial das coisas, engolimos os caminhos que muitas vezes não temos o livre-arbítrio de escolher.

O filme basicamente é uma viagem interior da mulher que simplesmente perdeu sua identidade neste tempo.
Parando em locais sugestivos que a ajudaram a encontrar os indícios da resposta que tanto procurava, percebeu no final que a não era a resposta que não se encaixava, e sim a perguntava que ela tinha inicialmente que era distante daquilo que ela realmente precisava.

O fato é que o momento da pausa, da reflexão, não deve, em regra, acontecer apenas nos períodos de crise. Estamos impregnados, carregamos toda a culpa pelas coisas que não deram certo conosco e com as pessoas que se conectam a nós; aprender a se desapegar desta culpa é sem dúvida uma redescoberta de estilo de vida. Basta saber, que uma pessoa que dispensa energia em coisas ruins, como a culpa ou a ansiedade, está simplesmente indo contra o caminho que o próprio universo planejou para nós: investir esta energia nas coisas realmente boas é na verdade mudar de postura em relação à interpretação destas coisas que acontecem conosco diariamente. Literalmente olhar as coisas através de outro prisma.

Entender que as nossas escolhas não são aleatórias e que elas causam sim impacto nas nossas realizações. Afinal, as escolhas existem para nos libertar e não aprisionar às coisas que eventualmente não derem certo, recado para todo o indivíduo que pretenda evoluir sem medo de encarar a quebra como algo ruim, e sim como algo que simplesmente represente a renovação.

Para se chegar ao castelo, é preciso cruzar o fosso.

O grande exercício é descobrir o que realmente precisamos.
Entendo que recebemos a grande dádiva do Universo: estamos vivos, irradiamos luz e amor quando queremos, quando nos convém. O caminho que liberta é mais simples do que se imagina, e portanto mais difícil: estamos cheios de coisas, mas continuamos vazios.
E o universo quer você vazio: cheio apenas de energia para dar amor.


Na maioria das vezes, chega-se à sábia conclusão de que temos aquilo que precisamos. Passar o tempo de uma vida perseguindo coisas que não são necessárias, é na verdade reinventar o sentido de si mesmo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A grande Mãe

Tanto no período tifonico quanto no período baixo da era do pertencimento (9.500 BC a 4.500 BC), a humanidade reverenciou a figura da Grande Mãe. (Em 4.500 BC chamamos de período alto da era do pertencimento, quando aconteceu uma explosão cultural sem precedentes na história). Emerge então no período anterior um novo medo da morte, e novos substitutos para a imortalidade. As pirâmides simbolizam essa tentativa de vencer thanatos. O nascimento da civilização corresponde ao nascimento de grandes egos!
O autor faz distinção entre a figura natural-psicológica do mito, que chama de “Grande Mãe”, e a figura metafísica-mística, que chama de “Grande Deusa”. Com isso, diferencia os níveis de consciência 3 (mítico) e 6 (Sutil), de acordo com a taxionomia proposta.
Traçando paralelos onto-filogenéticos, aos cinco meses o bebê começa a se diferenciar da mãe. Esse processo se completa aos 18 meses, e aos 36 meses ele termina. “A mãe é a parceira com quem a criança desenvolve seu drama de separação”. O pai só entra em cena na fase do ego.
A relação com a mãe envolve o conflito entre ser um ser separado e o "não ser" (Nível urobótico) ; Entre estar imerso e indiferenciado. Essa dupla abordagem sustenta a visão antagônica entre a mãe boa (Grande protetora) e a mãe má (Grande devoradora).
As evidências arqueológicas encontradas sustentam essa idéia. As primeiras esculturas paleolíticas iniciais eram figuras maternas. Essas estatuetas foram talvez o 1º objeto de posse da humanidade. Em algumas tumbas foram encontradas até 20 estátuas!
O sacrifício estava no centro da mitologia da época. A lua era vista como “amante” da terra. A lua morria três dias, e renascia para um novo ciclo. Na época não se associava gravidez com sexo. Crianças a partir de cinco anos já faziam sexo e não engravidavam. Relacionavam-se 100 vezes e a menina/mulher só engravidava uma vez a cada nove meses. Qual a razão? Para aquelas mentes era bastante óbvio: A causa era o sangue! O sangue era o responsável pela gravidez!
Quando ela estava grávida ela não menstruava! Portanto, por analogia concluiam que o "sangue"(menstruação) tinha “fecundado” a mulher!
O conceito de pai também não existia. O filho era o seu próprio pai (Transava com a própria mãe). E morria para renascer. A figura do falo e do amante era bastante secundária naquela sociedade.
Wilber chama atenção para a semelhança com a mitologia cristâ: A grande mãe era a Deusa, e a amante era virgem. Os primeiros homens cristãos se reuniam (como fazem até hoje) em clubes para celebrar a sua masculinidade.
A conclusão mágica da época era que a mãe natureza precisava de sangue para ser fértil. Pois a vida dependia de sangue para existir. A crença social implícita e semi - consciente poderia ser descrita assim: “Se você quer promover a vida, você tem que comprar sangue”. A partir dessa premissa, o banho de sangue que caracterizou a época é compreendido. Até os Reis voluntariamente se sacrificavam (Regicídio) pelo bem de sua comunidade.
O Ritual com sacrifício era o substituto mágico para a transcendência e para a imortalidade.
Os mitos contam muitas histórias de o que acontecia com aqueles que ousavam desafiar ou trair a “Grande mãe”. O final dessa estória é sempre trágico. O ego, portanto, não conseguia se desvencilhar da natureza, de seu pertencimento imerso, de sua sina indiferenciada. A estória que estes mitos contam é sempre a mesma: A ideologia/condição da grande mãe demanda a grande dissolução: O sacrifício do Eu separado.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Coincidência Significatvia

Sentimos no íntimo que o futuro já está, pelo menos em parte, determinado e que é possível antecipar o nosso destino individual por meio de premonições e pelo isso da técnica de predição que vão da astrologia ao uso das cartas do Tarô ou dos cristais.
Por que isso? Será que é porque homens e mulheres sempre tiveram o desejo de se sentir parte de um Universo ordenado por padrões previamente estabelecidos, tendo se desiludido aí a ponto de querer suprimir a verdade de que, vista em escala cósmica, toda vida e a atividade humana são, em última instancia, coisa sem sentido?
O materialista tradicional deverá responder “sim” à primeira pergunta e “não” à segunda. Ele poderá concluir que não concorda plenamente como provas, mas um número muito grande de pessoas, hoje e no passado, já afirmou ter passado por experiências individuais que as convenceram da existência de um vasto plano cósmico, do qual suas vidas são pequenos detalhes.
A mais comum dessas experiências é, talvez, a “coincidência significativa” que, ocorre quando dois ou mais eventos ocorridos ao mesmo tempo, sem ligação causal, ganham significado especial ao serem relacionados. Ao usar a expressão “sem ligação causal” quero dizer que nenhum dos eventos causou o outro e que, ao que saibamos, eles não foram produzidos pela mesma força externa.

Ter sorte na vida

Todos nós queremos ter sorte na vida. A maioria das pessoas “confia na sorte” quando parece que as coisas caminham bem. Algumas se preocupam tanto com o assunto que tentam encontrar formas de predizer o futuro ou pessoas que façam isso por elas.
A crença na existência da sorte pessoal tem caracterizado quase todas as culturas humanas. Ela traduz na vontade de correr riscos – porque, de uma forma ou de outra sentimos que vamos “vencer”, que o acaso pode ser mais simples acaso e que existe “algo” misterioso que pode ser benevolente conosco em sua essência.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Algumas teses equivocadas sobre a América Latina ( e o mundo)

Em "Pátria Latina"
Do "Blog do Emir"
Emir Sader


1. A crise atual levou ao fim do neoliberalismo, da hegemonia norteamericana e levará ao fim do capitalismo.

- O maior equivoco desta visão é considerar que um modelo ou uma hegemonia ou um sistema social se termina sem que seja derrubado e/ou substituído por outro. Conforme o Sul do mundo ou outro bloco alternativo proponha alternativas e seja capaz de as construir. O neoliberalismo não terminou, se tempera com graus de apoio estatal.

2. Pode-se e deve-se “mudar o mundo sem tomar o poder”.

- O projeto de transformações profundas da sociedade “pela base” sem que desemboque na alteração das relações de poder não levou a nenhum processo real de transformação das sociedades latinoamericanas. Ao contrário, os movimentos sociais – como os bolivianos – que transformaram sua força social em força política, são os que protagonizam processos reais de mudança do mundo.

3. O Estado nacional se tornou um elemento conservador.

- Os governos progressistas da América Latina estão valendo-se do Estado, seja para regular a economia, para induzir o crescimento econômico, para desenvolver políticas sociais – entre outras funções -, enquanto os governo neoliberais são os que desdenham o Estado, transformam em mínimas suas funções e deixam espaço aberto para o mercado. Os processos de integração regional e de alianças no Sul do mundo também tem os Estados como protagonistas indispensáveis.

4. A política se tornou intranscendente.

Falsa afirmação. Os governos progressistas da América Latina resgataram o papel da política e do Estado. Se não tivessem feito isso, não poderiam reagir da forma como reagiram diante da crise.

5. Há milhões de “inimpregáveis” nas nossas sociedades.

- Esta afirmação, originalmente de Fernando Henrique Cardoso, tentava, buscava justificativas para os governos oligárquicos, que sempre governaram só para uma parte da sociedade,excluindo aos mais pobres, agora sob pretexto de um suposto “desemprego tecnológico”, que prescindiria de grande parte dos trabalhadores. Os governos progressistas associam retomada do desenvolvimento econômico com elevação constante do emprego formal e aumento do poder aquisitivo dos salários.

6. Os movimentos sociais devem se manter autônomos em relação à política.

- Os movimentos sociais que obedeceram a essa visão abandonaram a disputa pela construção de hegemonias alternativas, isolando-se, quando não desaparecendo da cena política, quando se passou da fase de resistência à de construção de alternativas. Enquanto que movimentos como os indígenas, na Bolivia, formaram um partido – o MAS -, disputaram e elegeram seu maior líder presidente da república. Em outros países, os movimentos sociais participam de blocos de forças dos governos progressistas, mantendo sua autonomia, mas participando diretamente da disputa pela construção de nova hegemonia política.

7. Só se sai do neoliberalismo para o socialismo.

- Houve quem afirmasse que o capitalismo tendo chegado a seu limite – seja pela mercantilização geral das sociedades, seja pela hegemonia do capital financeiro – com o modelo neoliberal, só se sairia para o socialismo. Sem levar em conta as regressões nos fatores de construção do socialismo nas ultimas décadas, não apenas o desprestigio do socialismo, do Estado, da política, das soluções coletivas, do mundo do trabalho, entre outros. As transformações introduzidas pelo neoliberalismo – entre elas, a fragmentação social, o “modo de vida norteamericano” como forma dominante de sociabilidade – representam obstáculos a ser vencidos em longa e profunda luta política e ideológica, para recolocar o socialismo na ordem do dia.

8. A alternativa aos governos do Brasil, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai, está à esquerda e não à direita.

- O fracasso das tentativas de construção de alternativas radicais, à esquerda desses governos, confirma que a polarização política se dá entre os governos progressistas e as forças de direita. Esta situação tem levado a que, freqüentemente, setores ideologicamente situados à esquerda desses governos, tenham – objetivamente ou mesmo conscientemente – se aliado ao bloco de direita, terminando por definir, na prática, nem sequer uma eqüidistância dos dois blocos constituídos, mas até mesmo considerando ao bloco progressista como seu inimigo fundamental.

9. Os processos de integração atuais são de natureza “capitalista”.

- Esta visão desqualifica todos os processos de integração regional, porque não se dariam mediante uma ruptura com o mercado capitalista internacional, porque representariam integrações no marco de sociedades capitalistas. Se incluiriam não apenas Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, mas também Venezuela, Bolívia, Equador. Se deixa de compreender a importância da criação de espaços de intercambio alternativos aos Tratados de Livre Comércio. Não se entende a importância da luta por um mundo multipolar, debilitando a unipolaridade imperial norteamericana. Não se entende como a Alba promove formas de intercambio alternativas ao mercado, às regras da OMC, na direção do que o FSM chama de “comércio justo”, solidário, de complementaridade e não de competição.

10. Existe uma esquerda boa e uma esquerda ruim.

- Quem prega esta posição quer dividir a esquerda, tentando cooptar seus setores mais moderados e isolar os mais radicais. A esquerda é antineoliberal e não a favor dos TLCs, privilegia as políticas sociais e não os ajustes fiscais, com os matizes que tenha cada um dos governos progressistas.

11. O período atual é de retrocessos na América Latina.

- Alguns setores, com critérios desvinculados da realidade concreta, difundem visões pessimistas e desalentadoras sobre a América Latina. Às vezes usam o critério da posição dos movimentos sociais de cada país em relação à constituição dos governos, para definir se há avanços ou não, ao invés de definir a natureza desses movimentos em função da posição que tem em relação a esses governos. Subordinam o social ao político, sem se darem conta dos extraordinários avanços do continente, ainda mais se comparados com a década anterior e com o marco internacional, profundamente marcado pelo predomínio conservador. É um pessimismo produto do isolamento social, de quem está à margem das formas concretas pelas quais avança a história no continente.

12. Em eleições como a uruguaia, a brasileira e a argentina, para a esquerda, tanto faz quem ganhe.

- Há quem diga isso, como se a vitória de Lacalle ou de Mujica representassem a mesma coisa para o Uruguai e para a América Latina, como se o retorno dos tucanos ou a vitória de Dilma tivesse o mesmo sentido, como se a substituição dos Kirchner por Duhalde, Reuteman, Cobos ou algum outro prócer da direita argentina, significasse o mesmo para o país. Consideram que se tratariam de “contradições interburguesas”, sem maior incidência, desconhecendo o alinhamento das principais forças políticas e sociais de cada um dos dois lados, mas sobretudo as posições – de aprofundamento e extensão dos processos de integração regional ou de TLCs, de prioridade das políticas sociais ou de ajuste fiscal, do papel do Estado, da atitude em relação às lutas sociais, ao monopólio da mídia privada, ao capital financeiro, entre outro temas, que diferenciam claramente os dois campos.

13. O nacionalismo latinoamericano contemporâneo é de caráter “burguês”.

- Desde que ressurgiam ideologias nacionalistas na América Latina, com Hugo Chavez, houve gente que se apressou a comparar com Perón, a desqualificar como “nacionalismo burguês” ou simplesmente de nacionalismo, que nada teria a ver com luta anticapitalista, etc. Usaram, aqui também, clichês, sem fazer analises concretas das situações concretas. O nacionalismo de governos como os da Venezuela, da Bolívia, do Equador, que recuperam para o país os recursos naturais fundamentais de que dispõem, são parte integrante da plataforma antineoliberal e anticapitalista desses países. Cada fenômeno adquire natureza distinta, conforme o contexto que está inserido, cada reivindicação, conforme o governo, assume caráter diferente. No caso do nacionalismo atual na América Latina, ele promove, além disso, processos de integração regional, tendo assim um caráter não apenas nacional, mas latinoamericanista

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Saudações à nova Era

"Já diziam os oráculos da verdade, a única coisa que o homem possa a vir sucumbir é à mudança. Seres mais evoluídos com toda a certeza já vem preparados de berço para transmutar. Temos visto por todas as partes. Acompanhado a evolução individual e coletiva; temos visto as veredas daqueles que passam por nós e nos acompanham. Coisas boas nos apontam, sem dúvida. Talvez a mudança latente em algo superior inspire os outros a buscá-las sem temor, afinal, mudar faz parte do evoluir.
No Brasil, vemos um movimento interessante, de desalienação da sociedade civil. Por muito tempo, estivemos lacrados nos baús do Leviatã sem por muito ter o que questionar. Nos disseram que precisaríamos de tempo para maturação da civilização. Hoje, a fusão da meia geração X com meia geração Y, nos proporciona uma ótima discussão sobre as futuras possibilidades. O momento de traçar o futuro é somente no presente. O agora fala mais alto do que qualquer tempo. Temos o tacão de ferro dominante gritando mais alto do que nunca.
O medo agora é o do lado de lá.
É chegado o momento de uma mudança espiritual: abdicar os preconceitos que temos sobre nós mesmos, e fazer algo diferente. Para a vida de cada um.
É o momento de saudação à Era benvinda, Aquários já antevê a abundância.
E num período de preparação, que fiquemos cientes de que a mudança virá, e cada um terá de escolher se pretende mudar ou não."

Saudações

terça-feira, 8 de junho de 2010

Liberdade de expressão x liberdade de imprensa

No conversa afiada de hoje,

O professor Venício A. de Lima acaba de lançar pela editora Publisher o livro “Liberdade de expressão x Liberdade de imprensa – Direito à Comunicação e Democracia” .

Ele conversou com Paulo Henrique Amorim por telefone.

Sobre a diferença entre Liberdade de Expressão e Liberdade de Imprensa, Venício Lima explicou que “liberdade de expressão” é um direito do indivíduo, um direito fundamental do ser humano, o direito à fala.

“Liberdade de imprensa” é o direito de imprimir, “print” em inglês. Com o passar do tempo, o direito de imprimir se tornou o direito de grandes conglomerados empresariais.

PHA perguntou a quem, no Brasil, beneficia a confusão entre “direito de expressão” e “direito de imprensa”.

Venício Lima respondeu: beneficia os grandes grupos de mídia.

É uma confusão deliberada, porque, como ninguém é contra a liberdade de expressão, misturar uma liberdade à outra é uma forma de assegurar a liberdade dos grandes grupos empresariais da midia (e só a deles – PHA).

O livro do professor Venício de Lima relembra as conclusões da Hutchins Commission – Uma imprensa livre e responsável.

Robert Hutchins, reitor da Universidade de Chicago, reuniu, entre 1942 e 47, treze personalidades do mundo empresarial, para, sob encomenda dos grupos Time-Life e Enciclopédia Britânica, entender por que a imprensa era tão criticada.

Para enfrentar os críticos, a Comissão Hutchins sugeriu que a imprensa praticasse o “bom jornalismo”, ou seja, respeitasse a objetividade – e separasse opinião de informação – , a exatidão, a isenção, abrisse espaço para a diversidade de opiniões ( e, não, só para o PUM – o Pensamento Único da Midia – PHA) , e buscasse o interesse público.

PHA perguntou se no Brasil, hoje, o PiG (a grande midia) respeitava os princípios desse “bom jornalismo” da Comissão Hutchins.

Venício respondeu: Não !

domingo, 6 de junho de 2010

Frei Betto e os "oráculos da verdade"

Blog do Miro, por Altamiro Borges

O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo por ter adotado em suas obras uma linguagem hermética. Porém, num de seus brilhantes textos (O que é o Iluminismo?) sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos oráculos da verdade: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.

Esses, os guardiões da verdade que, bondosamente, velam para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que as mortes de terroristas nas prisões made in USA de Bagdá e Guantánamo são apenas acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de prolongada greve de fome.

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos EUA no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias com crianças e mulheres, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, ostenta a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio, em nome do agronegócio, invade a Amazônia, desmata a floresta e utiliza mão de obra escrava.

É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, gado doméstico, arrebanhamento, de modo que todos aceitem, resignadamente, permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam: Não pensem! Obedeçam! Paguem! Creiam! O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário que, hoje, ordena ao rebanho de consumidores: Não pensem! Gastem!

Tocqueville, autor de Da democracia na América (1840), opina em seu famoso livro que o tipo de despotismo que as nações democráticas deveriam temer é exatamente sua redução a um rebanho de animais tímidos e industriosos, livres da preocupação de pensar.

O velho Marx, que anda em moda por ter previsto as crises cíclicas do capitalismo, assinalou que elas decorreriam da superprodução, o que de fato ocorreu em 1929. Mas não foi o que vimos em 2008, cujos reflexos perduram. A crise atual não derivou da maximização da exploração do trabalhador, e sim da maximização da exploração dos consumidores. Consumo, logo existo, eis o princípio da lógica pós-moderna.

Para transformar o mundo num grande mercado, as técnicas do marketing contaram com a valiosa contribuição de Edward Bernays, duplo sobrinho estadunidense de Freud. Anna, irmã do criador da psicanálise e mãe de Bernays, era casada com o irmão de Martha, mulher de Freud. Os livros deste foram publicados pelo sobrinho nos EUA. Já em 1923, em Crystallizing Public Opinion, Bernays argumenta que governos e anunciantes são capazes de arregimentar a mente (do público) como os militares o fazem com o corpo.

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de homogeneizar seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo por meio de uma propaganda libidinal que nele imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, tanto maior a maximização do lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.
Altamiro Borges, no Blog do Miro

A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o do vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurado por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol.

A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Essa, a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Veja, mas não me aborreça


Ontem, estava na fila do mercado aguardando minha vez e resolvi folhear a Veja para passar o tempo. Para passar o tempo inocentemente, li a matéria "A farra da Antropologia oportunista", uma daquelas que são auto-explicativas. Explico: una um belo título com a fotografia de Indíos, somado ao atual debate sobre a Usina de Belo Monte. Fiz a besteira maior de procurar referências e sendo este meu ato o grande causador deste post, um dia mais tarde, e espantando, fechei a revista ao ver Eduardo Viveiros de Castro "falando" que só era índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original. Acho que pela minha sonolência do momento, minha revolta se restringiu ao intervalo entre o bater de folhas da revista e entrar no carro para ir para casa.
Não fiquei exatamente surpreso com a matéria, pois não a li no inteiro teor. Fiquei aliviado ao ler o viomundo e o conversafiada hoje pela manhã,que ambos tinham uma manifestação do próprio Eduardo, ainda mais indignado, dizendo que queria muito saber quem tinha escrito aquela matéria mentirosa.
Me deixa surpreso sim, constatar que em meio à uma democracia que prega tanto a liberdade de imprensa e de informação, vivamos literalmente na Anarquia de Bakunin, e ainda que isso não fosse uma coisa boa, acabar por concluir que a direita realmente não existe, não tem nem virtude sequer fortuna.
Realmente, a Veja não quer que você enxergue.


(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.
Paulo Henrique Amorin

sábado, 1 de maio de 2010

Se ao final de um evento não se entender que o movimento do universo é proporcional ao momento da nossa escolha, então fatalmente daremos o nome a isto de apenas uma coincidência.E isto será apenas um acontecimento.

Factory Girl


Existe uma barreira artificial entre as pessoas que querem ser diferentes e as que simplesmente despertam o sentimento de diferença nas outras, sem fazer muito esforço. Sem dúvida nenhuma, Andy Warhol continua sendo até hoje uma dessas que, inexplicavelmente, provocam um sentimento em todos que o conhecem. Ter contato visual com algo que Andy Warhol fez é suficiente para que não se passe indiferente.Os que gostam, conseguem enxergar nele uma magia de um gênio que recriou um conceito de enxergar um mundo à sua época. Os que não gostam,relutam em aceitar a arte tão óbvia, ou sem técnica aparente.
Seja para elogiar ou desmoralizar, é difícil ignorar Warhol.
Ao assistir ao filme, me convenci disto. Talvez o maior legado de Andy Warhol não seja o impacto ou a falta de criatividade na sua obra, ou qualquer outra coisa que faça com que as pessoas gostem ou odeiem alguma outra coisa. Chego a conclusão pessoal que Andy, foi uma destas pessoas que aproximam todas as outras através da linha tênue do livre-arbítrio. Se isto foi previsto por ele, devo então admitir sua genialidade. Seja qual foi a intenção dele, me parece que sua obra é apenas um instrumento para que as pessoas se questionem, e defendam seus pontos de vista com fundamento no princípio básico da liberdade, em que cada um deve escolher aquilo que acredita ser melhor para si mesmo.
No filme, Eddie Sedgwick ( Sienna Miller) parece ser o oráculo de Andy, e uma daquelas respostas que conseguem chegar antes de todas as perguntas. Afinal, o quê queria dizer Andy Warhol?
Talvez Andy mesmo não quisesse dizer nada. E é exatamente aí que está o grande segredo.

domingo, 18 de abril de 2010


Sorte ou azar, por ter nascido na terra dos Carnavais, terra esta que fazia sol de fazer o caboclo se arrepender de ter nascido e de presenciar a seca que faz o ovo fritar no chão batido e terra esta que chove e faz frio no mesmo dia, morava um dos deles, chamado Albuquerque. Costumavam lhe chamar pelo patronímico por ser tradição, fazia soar a importância da história da família, mas ele realmente não tinha importância social. Não era advogado, tampouco se formou em Medicina.
A terra dos Carnavais, era a de sua região, de longe a mais previsível. A menos efervescente em ideias, os que ali nasciam sabiam exatamente o que estariam fadados no decorrer de suas vidas. Alguns plantavam, outros tantos trabalhavam em escritórios, mas a maioria mesmo saía da floresta em busca de uma nova oportunidade na grande cidade. Esteticamente parecia uma cidade como qualquer outra: vias cheias de carro, trânsito insuportável e fumaça para todo o lugar; no mesmo local se concentravam sedes da burocracia carnavalesca, os órgãos do Estado, as universidades bolcheviques, gente correndo para matar o tempo, gente ganhando dinheiro em cima de tantos outros e tantos outros palestrando para matar a fome da grande maioria, enfim, um grande aborrecimente nacional. O fato é que ilusão ou não, o País se fantasiava uma vez por ano para travestir que na verdade, não era uma terra de verdade, e seus cidadãos, faziam com toda a pompa bravejar sua honestidade, hospitalidade, e força para lutar e caminhar mesmo com todas as dificuldades do Carnaval. Mas talvez o mais bonito, era o bom senso. Além de muitos se acharem inteligentes por sua educação política, o poliglotismo era muito valorizado. Há quem diga que quem falasse latim até conseguisse um lugar melhor no céu. E assim ia, como quase que uma escala pluviométrica, iam lhes enchendo a cabeça de que títulos pudessem ser como a água, para levar-los para algum lugar melhor. Com certeza, se não fosse a terra dos carnavais, a terra dos carnavais com certeza seria a terra dos títulos.
E não à toa, que voltemos na história de Albuquerque, que apesar de ter nascido e vivido e ter sido educado na terra dos carnavais, ainda era diferente. Sua família lhe estranhava pela sua ingenuidade, pela sua prestreza e pelos sentimentos que tinha pelas outras pessoas. Sentia pena e comoção quando via alguém com fome, mesmo que os traunsentes considerassem aquilo normal. Sorte ou azar, começaram a lhe enxergar como a própria revolução: era bizarro e ao mesmo tempo um guru dos tempos. Não entendiam porque não lhe convia seguir as regras que toda a história havia seguido. De seu modo de vestir à sua forma de pensar, diriam os burocratos em latim que era o próprio "ad hominem". Mas talvez o que mais chocasse era sua forma genuína de pensar: pensava por conta própria e isso era realmente perigoso. Lhe recorriam por vezes para tentar descobrir o que havia de errado, com insucesso.
Com esta história, Albuquerque nasceu e viveu. Sua família nada pôde fazer por muito tempo a não ser começar a cogitar a possibilidade de remendar Albuquerque, dando lhe trabalho e ocupação. Não que fosse um homem ruim, que precisasse de reabilitação. Ao contrário, tinha a mania irritante de ser bom e honesto, seu coração era visivelmente puro e dotado de boas intenções.
- Se queres subir na vida, precisa de um título. Apenas um título, qual seja ele. Será-lhe suficiente para arranjar algum cargo público, ou em alguma repartição burocrática nacionalista.Depois disso, é tudo ascensão. O que queres?
- Quero pensar para trabalhar, e não ao contrário. É possível?
- Veja. Fica mais fácil trabalhar para os papeis. Veja, o Estado tem muitos papeis nas suas salas, e isso é maravilhoso. Além disso, o Estado...o Estado somos nós- como se pudesse bradar na voz de Luis XV o l'État c'est moi.- Ora, trabalhar para os outros é loucura. Lisonjeios falam mais baixo que o próprio resultado, então terás que trabalhar de fato.

Albuquerque foi pensar. Matriculou-se no Liceu daquela terra, e seja em qualquer área da ciência propedêutica, teve a impressão de encontrar seu lugar finalmente. Seu mestre, Maximiliano, lhe adotou com certa compreensão pela sua história sofrida. Tinha algum sentimento desconhecido por aquele ser, sabendo que ele de fato não era normal. Ainda tinha dúvidas se era patologia ou dislexia, porém mantinha para si aquela opinião. Não suficiente suportar a situação por muito tempo, chamou Albuquerque no canto no final de um curso :
- É deveras diferente. Faz mais do que os outros, tem uma mania insistente de contestar aquilo que os livros próprios dizem. São eles a eterna fonte da sabedoria, não há um grão que poderás fazer para mudar teorias de toda a história.
- Prejudico-lhe?
- Não, mas poderás sofrer. Possivelmente sofrerás. Provavelmente sofrerás. Pensais por contra própria, e isso é demasiadamente perigoso. Altera o bom senso das pessoas; tapas de luvas dóem mais do que de verdade.
Na terra dos carnavais, o Liceu era quase que uma seita. Dali saíam as grandes cabeças, já reguladas e moldadas para ocupar os grandes cargos burocráticos. Dali, saíam mais forte por causa da tortura. Diziam que vedar a vontade de gritar de dor potencializava o seu título, e poderia cada vez mais suportar mais e mais sem que lhes incomodasse as opiniões injustas. Treinavam ali seres biologicamente superiores, pois saíriam em escala evolutiva visivelmente superior ao resto das outras pessoas. Em ultimato, veio o Sr. Maximiliano e lhe disse:
- Terás que sair. Não lhe suportam por causas das dúvidas que geras.
-Já sabia Sr. Maximilano.
Neste meio tempo, abriu o livro que carregava consigo e não por acaso leu ao mestre:
- "Ser normal é talvez a coisa mais útil e conveniente com que podemos sonhar. Mas a noção de ser humano normal, tal como o conceito de adaptação, implica limitar-se a média. Ser normal é o ideal dos que não tem êxito, de todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de adaptação. Mas para as pessoas dotadas de capacidade acima da média, que não encontram qualquer dificuldade em alcançar êxitos e em realizar a sua cota parte de trabalho no mundo, para estas pessoas a compulsão moral a não serem nada senão normais significa o leito de tortura: mortal e insuportavelmente tedioso, um inferno de esterilidade e desespero".
- Sugiro procurar uma Igreja. Ela lhe acertará algo que falha.Tenho um Padre conhecido na Igreja Três-quartos; chama-se Antenor.
E cansado das intervenções alheias, decidiu Albuquerque procurar sua própria sorte. Nunca havia tido muita simpatia pelo Clero da cidade, não gostava das declarações dos padres nas paróquias e da própria censura da sua família em não ser praticante da religião, identidade da família e tradição na história da família Albuquerque por tantos anos, seria ele também a quebrar esse rito mais uma vez. Chegando em casa, a mãe lhe abraçou e parabenizou-o pela decisão.
- Finalmente terás uma vida correta!
Chegando na Igreja, confessou ao Padre seu incômodo:
- Sou correto demais, justo demais, honesto demais.
- É problema na tua essência; está desregulada. Acontece de ora em ora no momento da concepção, dizem ser um problema de fábrica. Talvez seja imprevisão nas peças do livre-arbítrio.
Albuquerque atalhou:
— E o senhor fica com o meu livre-arbítrio?
— Se o deixar.
Repousou-o dentro de uma caixa preta.
— Pois aqui o tem. Conserte-o. O diabo é que eu não posso andar sem ele, pelo menos para as decisões menos importantes.
— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe um de plástico.
— Funciona?
— É de plástico. explicou o honesto Padre. Albuquerque recebeu o chassi de sua essência, enfiou a de plástico, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Albquerque tinha a simpatia da vizinha, tomava cerveja com o Chefe da Repartição, ganhava uma pequena fortuna fazendo duplicatas frias para os comerciantes do país ao lado. Sua mãe via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porém, veneravam-o, e os companheiros não tinham saudades em recordar o tempo em que Albuquerque era desregulado. De fato não pensava, apenas agia como os outros. Queria subir mais alto, e esqueceu a ideia de andar para frente. Explorava, adulava, falsificava, extorquia, corrompia, tergiversava. Sua mãe se orgulhava vendo seu filho com juízo. No centro proletariado, o seu reconhecimento crescia; era bajulado dos chefes burocratas, da frota proletariada e dos irmãos bolcheviques da Rússia. Foi eleito representante por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — A sua subida era comparada ao de um foguete rumo à Lua. Esqueceu rapidamento do passado doloroso, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente. Largou a dúvida para o passado.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País dos Carnavais encontravam divergências para encontrar o nome do próximo representante, e que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Albuqueruqe era o mais bem quisto. Então ele passeava de carro pelas ruas movimentadas, quando rememorou da Igreja que havia deixado seu livre-arbítrio. Tinha pressa, pois precisava chegar ao local da votação com rapidez e agilidade. Acreditou que 5 minutos ali não lhe fariam mal. Entrou na Igreja, e procurou pelo Padre Antenor.
- Veja, deixei meu livre-arbítrio há tempos para reparo. Por infortúnio, olividei-me de buscá-la.
- Não prossiga. Tenho aguardado ansiosamente pelo Senhor. Como está o de plástico? Regula bem?
- Absurdamente bem. Minhas dúvidas passaram.
- Olha, os livre-arbítrios de plásticos não são de toda a matéria ruim. São de fato provisórios, mas me espanta ter se encaixado com tanta perfeição no local em que ocupava a anterior.
- Porque ponderas?
- Bem, posso lhe dizer que em anos de Ministério, jamais encontrei artefato tão perfeito. É a placa precisa do próprio Universo, tem o equilíbrio das vibrações. Enfim, é atemporal. Tens uma obra-prima, um masterpiece de Sarte. Quiça me arrisco a dizer que isso é obra do próprio Deus.
Albuquerque hesitou em recolocar o antigo depois das considerações do Padre.
-Embrulhe-o por favor.
-Não o coloca de volta?
- Não, por favor.
- Ora Albuquerque, adverto-lhe que este não é utensílio trivial e cotidiano. Deve ser usado com um Tuxedo para festa de gala, caso contrário inevitavelmente dará de fatona cara. Fará com que se torne um homem superior.
Mas Albuquerque não era tolo, havia aprendido a respeitar a ordem social e a harmonia do homem-médio.
- Acredita causar discórdia mesmo se como objeto de decoração? Há chances de que fatalmente um dia ele me prejudique?
- Possivelmente. Ela fatalmente voltará a brigar com a sua consciência. Porque não tenta?
- Prefiro não arriscar. Prefiro ficar com a opinião dos outros, aquele que dizia que ele não servia. Livre-arbítrios devem estar em consonância com o clima e com as virtudes de cada povo, caso contrário podem fazer mal aos outros como eu mesmo fiz. Da nota que me deram em buscar sair da normalidade, conheci o homem-médio que sou, e para mim,convém-me manter assim.
-Leve-o consigo - mudando de ideia.
E assim, começou e terminou a história de Albuquerque, o homem que não conseguiu ser nada nem com nem sem o melhor do artefato já disponibilizado por Deus na terra dos Carnavais.

domingo, 28 de março de 2010

Nem Freud explica


Talvez não tenha sido bem interpretado no último post quando disse que temos um senso de justiça enlatado, mas explico: foi de certa maneira uma reação sobre à situação que todos os meios de comunicação divulgaram esta semana de forma uníssona e sempre muito bem decidida: o júri popular do milênio da história do Brasil do Estado de São Paulo. O resumo da ópera é que parece-me muito importante à mídia ter dado um foco milagrosamente transparente ao caso de "injustiça e impunidade"( palavras deles) como este, para nos dar a sensação de compensação de todos os outros casos de igual injustiça e impunidade ( palavras minhas) que são omitidos diariamente.
Sem dúvida vivemos no País da contradição. Casos como este, acreditem, ocorrem todos os dias no Brasil inteiro e ninguém se importa. Mas me pergunto: não deveria a mídia ( leia-se quase todos os veículos de informação) dar um pouco mais de atenção aos casos que realmente comovem qualquer pessoa com um sentimento de real indignação e desrespeito? Digo dos casos de corrupção não julgados, do corporativismo parlamentar tão mais nocivo à sociedade. Porque não existe tanto empenho em resolver aos mistérios dos atos secretos e porque nestes casos de conluio das CPI's, a perícia nunca consegue dar um laudo conclusivo a favor do interesse maior da nossa sociedade?
Quando menciono que temos um senso de justiça enlatado é exatamente por que incrivelmente, vivemos num país onde a informação, que a deveria de ser, às vezes mais parece ser uma repartição de imprensa do DOPS. Dou o nome disse de alienação. Se existe alienação é por que existe o alienado, ou aquele que não tem educação nem conhecimento para discernir o seu próprio julgamento. Se a corrupção existe, da mais simples à mais sofisticada, é porque a nossa sociedade ainda não absorveu determinados valores que são inerentes ao seu crescimento como civilização, advindos em sua grande maioria pela educação das crianças. Existe crime maior do que este? Sim.
Se existe a fronteira entre opressão e liberdade, deve-se muito ao livre-pensamento, e o exercício da livre informação praticado em muito pelos meios de comunicaçao. Pois bem, pouco me importa quem é o culpado da morte. Deixo isso para eles e para o travesseiro deles. Mas os infanticídios que são cometidos diariamente por não existir escolas suficientes para instruí-las ou quando falta merenda na escola com os impostos que eu e você pagamos pois as verbas foram desviadas, aí sim, isto torna-se um problema meu também. Aí sim, a promotoria deverá encher a boca para condenar antes de julgar e você também, deverá tomar partido com os cartazes gritando por justiça de fora do Plenário.
Quem acabou de ser condenado fomos todos nós, com um belo exemplar da alienação da nossa bipolar Imprensa Brasileira.

terça-feira, 23 de março de 2010

Indas e vindas da epopeia grega


Me perguntaram o porquê de ter um blog e não escrever sobre temas jurídicos. Pois bem, vamos lá:
Em uma discussão num programa de TV sobre as ações afirmativas e sua eficácia, foi abordado como de praxe o aspecto jurídico em contrapartida ao pragmatismo sociológico. São conceitos estes inabreviáveis, portanto me perdoeem a prolixidade. A questão era saber o limite da "legalidade" nas questões que são iminentemente sociais. Explico: criar condições para favorecer aos desfavorecidos, conceito de Ruy Barbosa, é de certo modo uma situação que cria um alto grau de insegurança jurídica, pois permite a abertura de exceções para determinadas naturezas de conflitos. O exemplo é facilmente compreensível se levarmos em conta a Lei Maria da Penha, dos direitos indígenas, dos direitos dos negros etc etc etc. A discussão é infinita e os debates, recorrentes. No entanto me chamou a atenção de uma mestranda em Ciências Sociais pela USP, que suscitou a possibilidade de olhar por um outro prisma. Partindo do pressusposto que deve-se defender os princípios constitucionais acima de tudo, neste caso, as ações afirmativas ferem o da igualdade e da isonomia. O conceito por si só é auto-explicativo. Mas a tal Mestre deu um banho, na minha opinião, em todos os outros mestres em Direito Constitucional. O princípio da Legalidade tem carregado na sua essência a legislação; mas não desobriga o legislador a não se ater às questões de cunho social que precisam ser debatidas, e não simplesmente remendadas e varridas para debaixo do tapete. Apesar de toda a evolução, ainda é pouco. Em país em que se leva na literalidade a ideia de Justiça, da imparcialidade da Deusa Têmis, tem-se um árduo caminho para se percorrer até chegar na evolução da "inclusão dos outros", de Habermas. O que ela quis dizer é que o próprio princípio da isonomia cria um ambiente um pouco controverso para as discussões de cunho social. Para se discutir, é preciso pedir com licença à Constituição, caso contrário o STF te faz ajoelhar no milho e pedir perdão.
Bom, a questão é que a própria história, mesmo que em forma de epopeia, já denunciava isto. Temis, a Deusa da Justiça,teve uma filha chamada Dike. Dizem que as gerações futuras são a evolução das anteriores: nasceu de pé descalços, com uma espada empunhada e a balança na outra mão. Mas o melhor é que nasceu sem as vendas. Ao contrário de sua mãe, não queria ser cega. Tá certo, fazia questão de ver tudo.
Talvez seja um pouco disso também para a interpretação de todas as coisas que tocam o nosso enlatado senso de justiça, ética e moral. E como a própria tal da Dike já dizia no passado, é possível fazer 3 coisas ao mesmo tempo: lutar com a espada, pesar com a justiça, e principalmente, olhar para o injusto sem as vendas de Temis.

sábado, 20 de março de 2010

Viciados em filmes


Imagine se você pudesse escolher a fotografia da sua vida. Não digo da sua imagem preferida, mas da forma como sua vida é fotografada. O ajuste de luz, o recuo, o zoom, o flash...enfim, o que você fotografaria?
Bom, tenho a opinião de que nossos olhos são pura fotografia. Posso comprovar isso pelos momentos que marcam na nossa memória, normalmente por serem coisas fortes que chamam atenção pelo simples fato de serem diferente daquilo que estamos acostumados a ver. Mas e todas as outras coisas? E todos os outros momentos que não temos fôlego para fotografar, porque não sei, estamos com pressa ou simplesmente muito viciados para não reparar em algo comum?
Conheço um gênio, e ele consegue enxergar exatamente o que o homem-médio tem aversão: as coisas banais. Melhor do que enxergar, ele fotografa na memória e ainda conta. Essa sagacidade é algo ímpar, que prende a atenção no momento de ouvir uma história. Consegue achar beleza na comunhão dos lixeiros em plena aurora sonolenta, e isso fica registrado como algo deveras importante. Talvez seja um pouco temeroso o fato de que não reconheçamos que temos na nossa memória apenas imagens que são importantes para nós. Certamente poderíamos ser mais generosos com a fotografia alheia e aprender um pouco mais com o universo que nos cerca. Penso no exemplo da águia: é um ser que se aproxima dos céus, e tem visão tão aguçada que pode não somente enxergar mais longe como com mais detalhes como nem um outro alguém. Daí me pergunto: se creio enxergar tão bem com minha visão saudável, como poderia ser enxergar ainda com mais detalhes por exemplo, à uma árvore, que para mim parece perfeita, cheia de cores e detalhes? Se pudesse enxergar mais a fundo do que teoricamente posso, esta árvore deixaria de ser uma árvore?
Fotografia não exige técnica, e sim disposição. É preciso dar um pause na câmera de filmar diária e saborear um pouco do diafragma mais perfeito que o homem já pôde criar: nossos próprios olhos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É fácil se perder com as coisas novas. Você não as conhece, nem elas conhecem você. Com o tempo se acostuma, e o novo, pouco a pouco, dá o tom de liberadade plena.
Mais fácil ainda é se acomodar com o velho, antes mesmo de que se perceba que o velho na verdade, é realmente o puro comodismo.
Mas o oposto também acontece. Com essa liberdade, as coisas mudam novamente. Aprende-se a viver mais para si sem que isso se pareça egoísmo. Não é fácil escolher viver desta maneira: renunciar às coisas velhas é um ritual por muitas vezes doloroso, mas que pode valer a pena.
A liberade dá uma chance única para aqueles que querem se redimir de sua história: faz com que ajam unicamente em função do que lhes faz feliz. Faz com que conjuguem menos o nós em função dos outros, faz com que percebam que a força individual pode levá-los para onde quiserem ir.
Descobrir que dentro de si, existe uma força que não se imaginava ter. Que sua capacidade vai além do que se pensa poder fazer. Percebe que a vida é muito mais do que a soma do passado com o futuro e que o que realmente faz a grande diferença é o momento que se chama agora. E quer saber, definitivamente o paraíso mora dentro daqueles que são livres.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Deus existe? Dois ensaios sobre cosmologia.




"Se Deus não existe, então tudo é permitido"




Já dizia Ivan.
Talvez para os mais descrentes, o início de tudo começa no momento da escolha. Mas e antes da escolha, quem a fez por nós? Se somos produto de algo anterior, aonde afinal é o começo?
Este raciocínio serve para ilustrar a nossa inconstância diante do universo e, que invariavelmente, nos coage a crer em algo superior à nossa possibilidade de escolha de viver. Pode-se escolher morrer, mas jamais se poderá escolher nascer.
Nesta esfera, vislumbro as possibilidades de compreensão da origem do cosmos, e dos seres do cosmos que somos nós. Em primeiro lugar, fazemos parte do cosmos. Em segundo lugar, pulsamos juntamente com ele. Por isso, importante ter ciência de que ninguém nos cria nesta vida, e sim que somos produto de uma origem anterior, datada do início do universo. A energia que nos criou pode ser caracteriza como Divina, pois incita a Supremidade da criação. Religião nenhuma cria nem destrói nenhum ser, deixai-vos cientes disto.
Somos então impulso das vidas anteriores, materializados em seres que falam e compreendem neste plano que chama-se vida humana- no entanto esta vida aqui não está sozinha, nem será a última das nossas passagens.
É aí que entra a cosmologia orgânica: ela vai tentar explicar a lógica da evolução humana, através do empirismo científico: para se ter uma ideia, a imagem mais detalhada do tecido terrestre se assemelha na forma com a imagem mais detalhada do tecido do universo: elétrons e constelações têm a mesma forma elíptica e, acredite, isto não é mero acaso. A cosmologia serve como o respaldo para fundamentar as teorias newtonianas e da infungibilidade da matéria: nada se perde, nem se cria: tudo se transforma. O universo não comporta vacilos. Assim como nós, que fomos algo anterior, somos hoje algo atualmente em evolução, em direção todos a um único destino: a posteridade.
Para o outro lado da moeda, mas não paradoxal, o espiritualismo se envolve com a alma como forma de demonstrar que somos eternos produtos de nós mesmos. Mas o que isso afinal quer dizer?
Crer em acaso para a cosmologia é como crer na imperfeição do universo, porém o universo é único e perfeito, mesmo que para a nossa compreensão atual isso pareça equivocada. Cada qual tem seu liame de evolução, e a vida atual é apenas o instrumento que nos fora disponibilizado para que passemos para o próximo plano, de maneira mais edificada e virtuosa. Viver de forma edificante é simples e exige receita única: seguir o propósito. Propósito este, que poderá ser comumente equivocado com destino, porém este não abriga um mero detalhe chamado poder de escolha ( Liberdade + livre arbítrio )
Mas um alerta: é importante não se desvencilhar do conceito de heresia, daquele que preceitua oriundo do grego opção. Cada um tem sua escolha, e inevitavelmente, carregaremo-as juntamente com nossas renúncias para "o outro lado de lá".

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Cuidado: não vão te deixar dormir.


Eis uma denúncia terrível e que vai causar impacto na mídia internacional: não vão te deixar dormir. Após uma investida maciça na psicologia humana para que nós mesmos nos condenemos dos nossos pecados, acabaram de inventar um veneno invisível, algo ainda pior do que a bomba do Hussein. Se nos sentamos para esperar uma consulta, o telefone com televisão está ali para lhe entreter. A comida deve cozinhar antes mesmo de ficar pronta, para que o cliente não perca tempo dialogando sobre coisas fúteis do dia-dia. Almoço é hora sagrada- e serve para se fazer aquilo que não temos tempo nos outros horários.
A televisão tem uma logística interessante: a sequencia de quadros é tão poderosa que faz com que nós, que estamos ali sentados, fiquemos hipnotizados pelas cores e pelo movimento da velocidade da substituição dos takes. Parece que a pessoa quer fazer outra coisa, mas não consegue. Outra novidade: experimente apenas ouvir a televisão. A fala é feita para prender nossa concentração não na mensagem, mas na sonoridade.
Quem vive nesse mundo louco, raramente sentirá uma palavra chamada tédio. Pode ser que impaciência conviva diretamente conosco, mas tédio, jamais. Tédio incita o ócio, e ninguém quer parecer ocioso. O ócio é feio, e mais do que o próprio tédio, lembra de algo mal quisto e mal visto pela nossa sociedade: a vagabundagem. Em linhas gerais, chegamos ao ponto em que não precisamos mais de vigias para censurar nossos atos: somos atualmente nossas maiores câmeras de segurança, vivendo eternamente nos liames da boa vizinhança e eternamente no sentimento da satisfação alheia. Essa tarefa por mais absurda que pareça, é de alta comprovação empírica. Nossos celulares abrigam o microcosmo da vida urbana, para que não nos esqueçamos nem no momento da inércia absoluta que somos seres flexíveis , e que sim, podemos não poder ficar parados à deriva se quisermos- e eu hei de querer. A boa nova é que a própria fotografia já denunciou a tragédia anunciada: da mesma maneira que câmeras são desenvolvidas para captar mais frames por segundo a cada dia, a memória não será mais suficiente para a quantidade de informação presente em cada quadro quando exaurir a sua capacidade, pois em um segundo só caberá algo que a visão e o próprio tempo permitir. Falando na língua humana, teremos em breve seres que retardarão no tempo dos frames por segundo, por puro e simples excesso de informação, se tornando os mais novos obsoletos produtos do mercado.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Nem todo texto tem título



Todo mundo tem um pouco do carnaval. Mesmo quem não gosta, acaba cedendo ao feriado para reavaliar e contribuir de um jeito ou de outro para a tese de que para brasileiro, o ano só começa depois da folia. E há quem custe a acreditar que o feriado é motivo cristão para dar adeus à carne. Esta última é a que me chama a atenção, mas mesmo assim nada me tira da cabeça que o carnaval é o grande divisor de águas da vida civil do brasileiro.
Talvez seja mais objeto de análise antropológica do que crendice cultural, mas é fato entender que cada um tem seu carnaval dentro de si, que brota da explosão das atitudes, da ilimitação da criatividade. Do eterno pique para o próximo dia. Todo mundo faz em algum momento apenas aquilo que tem vontade. Quem tem vontade de dormir, dorme. Quem bebe até encher a cara, faz com o maior prazer e sem medo da represália da ressaca do dia seguinte. As mulheres perdem o pudor virtual que sustentam o ano inteiro e acompanham os homens na orgia, sem medo do rótulo dos fiéis chatos que insistem em acreditar em amor recíproco ou até mesmo no casamento. Namoro? Palavra proibida nestes 5 dias. E ai de quem trazer o namorado para a viagem dos solteiros, vai ouvir os motivos de inveja ou simplesmente pedir para sair sustentando a justificativa num belo argumento de que "prefirimos algo mais tranquilo". No mais, as danças se revigoram a cada minuto, num movimento que mais parece uma constante competição de quem libera mais endorfina por segundo e produz risadas e comoção alheia do rídiculo por aquela dancinha que você julgou tão performática naquele momento de embriaguez. No entanto, todo mundo se diverte.

Mas depois, como uma reação à sensação de dever cumprido e do pensamento de que a partir de agora, a folia acabou e a vida de verdade TEM que começar, queira o carnaval ou não, cada um recomeça do seu começo. E o recomeço normalmente não se assemelha em nada com aqueles momentos de êxtase permamente característico do carnaval. Como em um grande movimento do desapego, todos se reúnem em volta da trivialidade novamente, de volta à velha vida já conhecida.
Finais e começos têm a mesma matriz: servem ora para conhecer o novo, ora para conhecer outro novo deixando o velho para trás. A quarta-feira de cinzas denuncia: é momento de deixar para trás a ressaca. E há ainda quem diga que dentro de si não mora um eterno carnaval.